17/05/2007

Características das cantigas de amor


Corrente Provençal.


É, pois, constituída pelas cantigas de amor, trazidas para a Península Ibérica, sobretudo através de:
– séquitos das princesas que a política dos casamentos reais fazia vir, principalmente, das cortes do Sul de França; citamos, por exemplo, os dois célebres bobos da corte de D. Sancho: Bonami e Acompaniado a quem o rei recompensou generosamente pelos seus serviços;
– trovadores que, segundo o costume, andavam, na Primavera (no tempo da frol, a que alude uma das já mencionadas cantigas de D. Dinis), de castelo em castelo, divulgando as suas composições;
– agrupamentos internacionais, principalmente a Peregrinação de Santiago de Compostela, que reunia peregrinos quer vindos de França, quer da Península Ibérica;
– as Cruzadas, trazendo ao litoral peninsular gente oriunda da França.

As cantigas de amor (em que falam os trovadores, segundo definição da Poética, dirigindo-se à sua dama ou aludindo a ela) consistem geralmente:
– num elogio superlativo da dama (obrigatoriamente de elevada estirpe social, o prez), com observância do amor cortês manifestado pela mesura (distância respeitosa do trovador em relação à Senhora, cuja identidade, por princípio, não revelará) e por uma vassalagem amorosa; das numerosíssimas deste tipo, citaremos a de D. Dinis Quer' eu en maneyra de proençal;
– num queixume pela coita de amor devido aos rigores, indiferença ou desamor da dama; que não deixa, por esse motivo, de ser, a todos os títulos, digna de amor e louvor; leia-se a cantiga Da mha senhor que eu servi... , também de D. Dinis.

As cantigas de amor têm, pois, um carácter convencional e palaciano, atestando um requinte sentimental de feição eminentemente aristocrática e cortês.

Requintadas e de certo modo convencionais, elas representam um conceito «mesurado» e cortês de amar, baseado no «enfengimento» ou fingimento de amor. Contudo, enraizando-se em Portugal, a poesia provençal modifica-se e nacionaliza-se: torna-se mais «portuguesa» quer pela forma menos rígida, quer pelo conteúdo, menos convencional, em que o amor cortês se aproxima da paixão sentimental. Mais do que decalcada do lirismo provençal, a cantiga de amor portuguesa é uma recriação original do género.

Maria Leonor Carvalhão Buescu, Apontamentos de Literatura Portuguesa